sábado, 7 de fevereiro de 2009

Os nossos eus

"Esses eus de que somos feitos, sobrepostos como pratos empilhados nas mãos de um empregado de mesa, têm outros vínculos, outras simpatias, pequenas constituições e direitos próprios - chamem-lhes o que quiserem (e muitas destas coisas nem sequer têm nome) - de modo que um deles só comparece se chover, outro só numa sala de cortinados verdes, outro se Mrs. Jones não estiver presente, outro ainda se se lhe prometer um copo de vinho - e assim por diante; pois cada indivíduo poderá multiplicar, a partir da sua experiência pessoal, os diversos compromissos que os seus "diversos eus" estabelecerem consigo - e alguns são demasiado absurdos e ridículos para figurarem numa obra impressa..." [Virginia Woolf, in "Orlando"] "Enfrentei pela primeira vez o meu "ser natural" enquanto decorriam os meus noventa anos. Descobri que a minha obsessão de que cada coisa estivesse no seu lugar, cada assunto no seu tempo, cada palavra no seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente ordenada mas, pelo contrário, um sistema completo de "simulação" inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza. Descobri que não sou disciplinado por virtude, mas como reacção contra a minha negligência; que pareço generoso para encobrir a minha mesquinhez, que passo por prudente por ser pessimista, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que não se saiba que pouco me importa o tempo alheio..." [Gabriel García Marquez, in 'Memória das Minhas Putas Tristes']
"A mentira, a mentira perfeita, acerca das pessoas que conhecemos, sobre as relações que com elas tivemos, a mentira acerca do que somos, acerca do que amamos, acerca do que sentimos pela criatura que nos ama e que julga ter-nos tornado semelhante a ela porque passa o dia a beijar-nos, essa mentira é das únicas coisas no mundo que nos pode abrir perspectivas sobre algo de novo, de desconhecido, que pode abrir em nós sentidos adormecidos para a contemplação do universo que nunca teríamos conhecido..." [Marcel Proust, in 'A Prisioneira']

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Uma coisa em forma de assim

"Há quem lhe chame, por brincadeira, besta célere para caracterizar a qualidade mediana (tomada por média) desse produto cultural (agora é tudo cultural!) e, ao mesmo tempo, a rapidez com que ele se esgota em sucessivas edições. O best-seller é um produto perfeito (ou eficazmente) projectado em termos de "marketing" editorial e livreiro. É para se vender - muito e depressa - que o best-seller é construído com os olhos postos num leitor-tipo que vai encontrar nele aquilo que exactamente esperava. Nem mais, nem menos. Os exemplos, abundantíssimos, nem vale a pena enumerá-los. Convém não confundir, pelo menos em todos os casos, best-seller com "topes" de venda. Embora seja "cabeça de lista", o best-seller tem, em relação aos livros "normais", uma característica que logo o diferencia: foi feito propositadamente para ser um campeão de vendas. A sua razão de ser é essa... e só essa. E aqui poderia dizer-se, recuperando o lugar-comum para um sentido sério, que "o resto é literatura". Estou a pensar em bestas céleres, não estou a pensar em "topes" de venda como O Nome da Rosa ou Memórias de Adriano. Estes últimos são boa, excelente literatura que, por razões pontuais e, muitas vezes extrínsecas à sua própria leitura, conheceram grandes êxitos de venda, o que é bastante diferente. Enquanto o best-seller é esquemático, quer dizer, não comporta mais do que o necessário, em termos de ingredientes, para comover ou motivar os simplórios, o livro "normal" nem pensa nisso. Nascido de uma necessidade interior, o livro "normal" chega ao leitor de "dentro para fora". O best-seller é exactamente construído ao contrário: chega de fora para dentro ou, até de fora para fora, visto que "a sua penetração no leitor" não é nenhuma, ao passo que a sua propagação é imensa. O best-seller é feito a pensar num leitor "espremido" por computador e serve a esse leitor tanto quanto lhe pode servir qualquer objeto de conforto. É um típico produto da chamada indústria cultural. Toma, exteriormente, a forma de livro para melhor se confundir com os verdadeiros livros. É uma espécie de ornamento (do espírito, da estante ou do caixote do lixo...) e cumpre, quase sempre, o seu papel, virada a última folha.O best-seller pode ser preparado com muita habilidade e, para os desprevenidos, constituir, até, uma obra de qualidade. A propaganda fará o resto. Mas isso será só ilusão. O best-seller tem a qualidade apenas necessária para não comprometer a quantidade que alcançou ou deseja alcançar. Esse é o seu verdadeiro objectivo: quantidade e mais quantidade. Hoje, que a literatura integra áreas cada vez mais vastas, uma há que não poderá integrar, a do best-seller, sob pena de se trasnformar no contrário de si mesma: o fabrico e o consumo de um produto que por acaso se chama "livro". [Alexandre O'Neill, in "Uma Coisa em Forma de Assim"]

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Os vícios

"A astronomia nasceu da superstição; a retórica, da ambição, do ódio, da adulação, da mentira; a geometria, da ganância; a física, da curiosidade vã; e todas elas, mesmo a ética, do orgulho humano. 
As artes e as ciências devem portanto o seu nascimento aos nossos vícios, e nós deveríamos duvidar menos das suas vantagens se elas tivessem tido origem nas nossas virtudes. 
Quantos perigos! Quantos caminhos equivocados na investigação das ciências? Por meio de quantos erros, milhares de vezes mais perigosos do que a "verdade" é útil, não é preciso abrir caminho a fim de alcançá-la? O problema é patente; pois a falsidade admite um número infinito de combinações; mas a verdade possui apenas um modo de ser! "
[Jean-Jacques Rousseau, in 'Discurso sobre as Ciências e as Artes']

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