segunda-feira, 4 de maio de 2009

Voyage, voyage

"É no outono que Porto Alegre é mais bonita. Quem conhece a cidade nessa época, apaixona-se perdidamente. Diria Quintana que no outono o céu de Porto Alegre é lilás. É mesmo. A cidade ganha uma outra luz, os dias são secos, o ar é propício a carregar os cheiros das folhas, da grama, do rio, das pessoas que passam, dos cafés recém coados, dos bolos de chocolate ainda quentes... As pessoas já saem com casacos pela manhã, mas não há o desconforto do frio de um dígito. Há o acolhimento das primeiras lãs, do cashemere, um cachecol mais leve, um xale. Depois, conforme o dia vai ficando alto, o calorzinho chega, espanta o geladinho das sombras, aquece num abraço. A cidade se espraia sob nossos pés e pede que a percorramos sem pressa, sem automóvel, sem ruído. Pede que a escutemos com atenção, sua música, suas canções. Eu sempre ouço Nei Lisboa pelas ruas no outono de Porto Alegre. E Vitor Ramil. No outono Porto Alegre é mais minha, é mais clara, é mais azul... É quando o chimarrão nos parques cai melhor, é quando as pessoas são mais bonitas, mais felizes, tem um sorriso pronto e vontade de olhar em volta... para os pássaros pousados nos fios elétricos, nos postes, em revoada ao entardecer! O outono de Porto Alegre me traz uma solidão menos triste, mais límpida e eu fico mais inteira. Deve ser a sensação ingênua de que o inverno não volta mais, que junho está muito longe, que a vida se resume a hoje, sob o céu lilás de Porto Alegre..."
Boa viagem, Caio... com todo meu amor!
[Clip trocado a pedido do homenageado viajante, rs!]
[Trecho de Madame Tussaud, do M.Mean!]

domingo, 3 de maio de 2009

A miséria dos minutos

"Um poema cresce inseguramente na confusão da carne, sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto, talvez como sangue ou sombra de sangue pelos canais do ser. Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência ou os bagos de uva de onde nascem as raízes minúsculas do sol. Fora, os corpos genuínos e inalteráveis do nosso amor, os rios, a grande paz exterior das coisas, as folhas dormindo o silêncio, as sementes à beira do vento,— a hora teatral da posse. E o poema cresce tomando tudo em seu regaço. E já nenhum poder destrói o poema. Insustentável, único, invade as órbitas, a face amorfa das paredes, a miséria dos minutos, a força sustida das coisas, a redonda e livre harmonia do mundo..." [Herberto Helder]

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