Minhas primeiras palavras foram: "duas e dez". Ainda de fraldas, ganhei um relógio de pulso. Sempre que me perguntavam as horas, não importando a hora verdadeira, eu respondia: "duas e dez". Eram as minhas horas. Nelas, eu começava a existir. Dessas primeiras e estranhas palavras, eu nasci. De onde tirei esse horário? Nasci de um mistério que se chama "duas e dez".
"Privamo-nos para mantermos a nossa integridade, poupamos nossa saúde, nossa capacidade de gozar a vida, nossas emoções, guardamo-nos para alguma coisa sem sequer sabermos o que essa coisa é... E este hábito de reprimirmos constantemente as nossas pulsões naturais é o que faz de nós seres tão refinados. Porque é que não nos embriagamos? Porque toda a vergonha e os transtornos das dores de cabeça fazem nascer um desprazer maior que o prazer da embriaguez. Porque é que não nos apaixonamos todos os meses de novo? Porque, por altura de cada separação, uma parte dos nossos corações fica desfeita..."