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sábado, 16 de julho de 2011

Suspensa e cega

Uma ideia que nos semeiem pode germinar e por isso é necessário sempre que as semeiem. A sua fertilidade não está na nossa mão ou na estrita qualidade da ideia semeada, porque o que somos profundamente só se altera quando o que somos o quer - e não quando nós o deliberamos. Assim nasce um desencontro entre a mecânica dos nossos raciocínios e a verdade que em nós já é morta. No hábito dos gestos, as mãos tecem a plausibilidade do que, em nós, já não é plausível... Então, nos é necessário substituirmos toda a aparelhagem de que nos servíamos e que já não nos serve. Só assim entenderemos que da «discussão» quase nunca nasça a «luz», porque a luz que nascer é de duas pedras que se chocam. Surpresos olhamos 'quem fomos' porque já não nos reconhecemos. Atónitos, nos perguntamos: como foi possível?, quando, onde, porquê?, ao espanto da nossa transfiguração, que nós próprios nos armamos, e mesmo quando foi a vida que nos armou; porque tudo quanto é da vida, e dos outros, e dos mil acontecimentos que quisermos, só existe eficaz e realmente quando atinge a profundidade de nós. Como aceitar assim a força da razão, se a força dela está onde ela não está? 
Uma verdade só o é quando sentida, não apenas "entendida"...

Bonjour!
[Vergílio Ferreira, in 'Invocação ao Meu Corpo']

domingo, 10 de abril de 2011

Garras que não se desgrudam

Livros saem uns dos outros e esses laços de sangue configuram o "estilo"... 


"Uma das primeiras dificuldades quando estou preparando-me para escrever algo é saber se esse novo texto poderá ou não adaptar-se à minha "maneira". A ideia sozinha, por melhor que pareça, não basta para justificar um relato". Não basta ter uma boa ideia _ é preciso que ela corresponda a um sentimento interior. Não basta projetar um grande livro: melhores são os pequenos livros que, apesar de discretos, se adaptam à "maneira" de quem o escreve. 
É uma luta corajosa desses grandes escritores que tem como projeto deliberado se tornar, a cada novo livro, "um novo escritor". Ainda assim, vestígios singulares, marcas quase invisíveis, se repetem livro a livro. Feridas de que um escritor não se livra. Garras de que ele não se desgruda. Chega então o momento em que o escritor, mesmo a contragosto, deve aceitar: "Isso sou eu". 
Juan José Saer

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