segunda-feira, 6 de abril de 2009

Have you seen this man?

[Sturm und drang - Arthur Cravan -Tempestade e Ímpeto!]
"Uma mudança de voltagem, um curto-circuito vem surtir efeito no século XIX com os chamados "Poetas Malditos", vagabundos da imaginação, com suas ousadias existenciais em que os conceitos passam à ação poética. Na França, são referência: Gerard de Nerval, Charles Baudelaire, Arthur Rimbaud, Paul Verlaine, que marcam o início da poesia moderna. E se os românticos "especularam", os malditos "rondaram" o abismo, unindo-os uma vontade de mudar a vida através da poesia, poetizar o mundo, desprezando o senso comum e a banalidade hipócrita da sociedade. No começo do século XX, a crise do positivismo, a primeira guerra mundial e o surgimento da psicanálise se conjugam para levar a uma nova discussão dos valores fundadores do ser. O binarismo ruína x substituição conduzirá à revolta, à insubordinação, ao niilismo, ao excesso na vida como na morte. A definição estética dessa crise ficará conhecida pelo nome de Vanguarda, Dada, Surrealismo.
[Arthur Collegian]
Surge, assim, o jovem suíço Arthur Cravan como o precursor do Dada. E como o Surrealismo é uma dissidência dadaísta, igualmente o seu antecipador. Isso porque a mentalidade das vanguardas ficou presa à elaboração de manifestos, como o do futurismo (1909) por exemplo, mas prefere-se repetir que Cravan pavimentou o caminho de Tristan Tzara, do que admitir simplesmente que o Dadaísmo na verdade surgiu com ele. "A glória é um escândalo", proclamava ele, "Eu não desejo ser civilizado"...
Seus contemporâneos nunca se cansaram de descrever sua personalidade e o seu comportamento, como Blaise Cendrars, Marcel Duchamp, Francis Picabia; sua pessoa ocupou exaustivamente a mente de seus inimigos André Gide, Robert Delaunay, Guillaume Apollinaire e Marie Laurencin, que reclamavam das páginas da revista que ele criara, a "Maintenant", onde publicava seus poemas e artigos sob vários pseudônimos, e outras publicações dadaístas anterior à primeira guerra. Arthur Cravan é o pseudônimo de Fabian Avenarius Lloyd, nascido em Lausanne, em 1887 e filho de ingleses; conheceu os Estados Unidos, Berlim e quando se transfere a Paris passa a usar esse nome, entre outros. Ainda escreveu haver bebido com seu tio Oscar Wilde em 23 de março de 1913 – mas como se sabe, o escritor inglês morrera em 1900. Segundo seus amigos, conhecer Arthur Cravan seria o equivalente a encontrar Poe ou Maupassant, Verlaine ou Musset, Whitman ou Swinburne; era descrito como uma "alta forma de gênio" com tendência às formas de transgressão.  Segundo André Breton, a vida de Cravan é o melhor barômetro para medir o impacto da vanguarda entre 1912/1917, já que costuma-se datar sua morte ao final de 1918, presumidamente afogado no golfo do México, mas não há disso qualquer certeza. Em carta de março de 1912 à sua mãe Nellie, Arthur Cravan/ou Fabien Loyd, lhe dissera estar pronto a tudo para se fazer conhecido; a esse tempo o primeiro número de sua revista "Maintenant" também estava pronto para sair; Cravan tem por estratégia "se fazer passar por morto" e publicar um livro como obra póstuma. Os dadaístas de Paris também recorrerão ao escândalo para se fazer conhecer: Francis Picabia utilizará a primeira página da “Comoedia” como porta-voz de suas idéias e já os futuristas faziam suas leituras públicas de manifestos. As conferências de Cravan, em Paris, contudo, buscavam a provocação pela provocação e esta foi a sua marca. 
Cravan conclui,portanto, que uma revista não era o suficiente: era preciso ir à rua e tomar de assalto os teatros na luta artística. Era comum o surgimento de revistas naquela época em Paris, como a anarquista "L’Actio d’Art", adeptos de Nietzsche e inimigos da 'vida estúpida'; "Vers et Prose", de Paul Fort, e a "Les soirées de Paris", de Apollinaire. E então, no outono, o poeta é considerado desaparecido no golfo do México, país de onde não parecia querer se afastar para residir com a esposa grávida Mina Loy em Buenos Aires. Desaparecido em 1918, deixa uma filha, Fabienne Benedict. 
Teria ele "se feito passar por morto" como em seu projeto de juventude? Cravan não se prendeu a um nome, a uma só identidade, uma só profissão, um só país... 
Em seu livro recente "Arthur Cravan não morreu afogado", publicado pelas Edições Grasset & Fasquelle (2006), o romancista e crítico de arte francês Philipe Dagen, ficcionaliza as suas memórias em trajeto múltiplo, intenso e desordenado, na ânsia de escapar de si mesmo, que o faz reinventar uma vida verdadeira e secreta, o diário de um fantasma..."
[Lucila Nogueira (Brasil,1950). Poeta, ensaísta, contista, tradutora.]
Saudações!

domingo, 5 de abril de 2009

Ossóptico 2

"Afirmo-te, antes de partires e antes de regressares da tua viagem em direcção ao Oriente, no muro longo onde ficou inscrito, fundo, o NÃO que nos move. Afirmo-te porque nos reconhecemos mesmo mortos, mesmo transformados.. Magnífica.. que decorei de ponta a ponta na memória, o teu olhar brilhante e escuro, o cordão que te cerca, os nós de que és feita, e é feita a nossa união, o oceano em que navegas e naufragas para ressurgires completa, depois da forma do mundo, no azul da montanha.. Mar azul-vermelho queimado de arestas, mar de dedos frios, de velas sibilinas na noite de cristal, mar de sonâmbulos esquecidos a medir o espaço com fitas de estrelas, mar de passageiros estranhos e abismados, mar de casas altíssimas onde habitam as cidades.. MAR para que não me chegam os olhos, mar branco de nuvens sobrepostas para lhe podermos passar por cima, mar de esquecimento, de objectos sensíveis e distintos, mar onde guardei o aquário azul que trago até hoje na memória.. E só hoje te espalho para o mundo MAR, onde é possível e provável o envenenamento total da espécie, onde descanso a minha mão esquerda sobre uma pantera negra e todos os dias mergulho em fogo.. Amor sem nexo, amor contínuo, amor disperso – MAR- mar com uma bala direita no cérebro, mar sem apoio em nenhum ponto do espaço, mas preso apesar de tudo, numa enorme teia diabolicamente construída para conseguir ser livre, mar de submarinos insondáveis que navegam o infinito do mar, mar espacial de sons, de cores, de imagens, de mil anos passados que percorremos.. MAR que flutua no MAR abusivamente medonho, amor esquecido, amor distante, amor insolente - Raomomar- O teu corpo envolvente vestido de água, os teus braços em túnel, que trazes desde a infância, o pelourinho azul que se ergueu na praça ampla e fotografei dez vezes, dez anos volvidos.. Ficar depois energicamente deitado até à descoberta da máquina de quem só eu tenho o projecto, até que me rebentem os pulmões de tanto descanso e os meus pés criem bichos multiformes e ganhem raízes, até a caridade e o crime serem de qualquer modo um arrojo impossível, até dizer a minha enorme e persistente capacidade de nojo, até me crescerem as barbas e com elas amarrar-me à cama onde me encontro deitado, e ficar a arquitectar crimes e caridades.. Até tu vires lenta lavar-me os pés inchados e vermelhos de tanto descanso, de tanto não mexer na ilusão, até tu vires ler-me as minhas idéias rascunhadas na minha outra Liberdade, contar-me histórias da minha infância sem omitir um detalhe, recitar-me todos os meus poemas e todos os poemas do princípio do mundo, e descrever-me a nossa pesca à mão das trutas que navegam no Rio.. Ficar energicamente deitado até que os prédios cresçam e arranhem o céu, até nos esquecermos, totalmente, dos que existem e para que existem, enquanto nos envolvemos de sedas, de veludos e plantas aquáticas, e assim terminarmos mais depressa de ir contra os nossos dias.. E assim PERDERMOS TUDO – perder-te a ti- Infinita- construída de estrelas, de núvens, de oceanos, de pérolas esquecidas, construída de histórias e corsários loucos..
Saber-te depois distante entre as pedras do meu sonho, saber-te RAINHA nas árvores da noite, MINHA em todas as histórias da minha infância, LOUCA nos olhos diabolicamente frios que me espreitam, no sonho do monstro que habitamos, saber-te ÁRVORE que sobressai nítida na inacreditável superfície, e estende os ramos em baloiço, e as raízes para o outro lado da superfície sem espessura, onde os homens andam, ao invés de pés, para o espaço, e cobrem-se de mares para dormirem nas montanhas AMOR – nunca como agora o Amor foi tão significativo, tão único baluarte da realidade real, da negação negada, da perda total que procuro..
Saber-te ASSIM até saberes isso, completamente, como sabes ser uma estrela o ponto cintilante que criaste, como sabes ser verdade, a verdade que cegamente - no nosso sonho amor - no nosso sonho tu afirmaste..." 
[António Maria Lisboa,in Ossóptico, parte 2, 1952]

Arthur Cravan

[Amalie Shoes]
"Os maiores monumentos são os que mais criam pó... Tudo o que brilha na primavera está prometido ao inverno... Tenho vinte países na memória e arrasto na minha alma as cores de cem cidades... Coração, partamos à galope... Estou arruinado, a fantasia, a loucura perdeu o seu dançarino... Arrasto na minha alma uma amálgama de locomotivas, de colunas quebradas, de ferro-velho... Em mim, o efémero tem raízes profundas... Sou eu o louco dos loucos – e olho todos esses especialistas – meu Deus!  quando penso que tenho trinta anos, torno-me selvagem – gosto da cama porque é o único sítio onde, como o gato, posso fazer de morto, respirando enquanto vivo – quando ando na farra ouço a voz dos dicionários... – se todas as locomotivas do mundo se pusessem a apitar ao mesmo tempo não poderiam exprimir o meu desespero – sou talvez o rei dos falhados, pois sou certamente o rei de alguma coisa... Seios, elefantes de ternura – Merda, vaca, carcaça de Deus! – O meu coração, na sua paixão abraça a idade da pedra...
[Mai Lamore Red]
Nunca se encontrou um artista enforcado diante de uma rosa... A aurora mudando os vestidos dos glaciares... A beleza sombria duma nuvem tenebrosa... Olho a morte através dos meus postigos... Sou um homem de coração, e tenho a certeza de o ser, e contudo, o passado mugiu como um boi – o ar nos meus brônquios - ... faz ressoar as hélices - ... como um carro branco... Depois de ter chorado, poder rasgar as minhas lágrimas... O meu coração agitado como uma garrafa – passa mais rapidamente do entusiasmo à desmoralização mais completa... Arrasto a recordação das caldeiras arruinadas...
[Saya Shoes]
Esmagar-te-ei fatalidade... Os versos de Rimbaud passam assobiando... A morte do maior dos homens não consegue sequer parar um comboio... Arrasto a lembrança de caldeiras arruinadas – os meus mil corações são teus – paralelogramos – um sorriso inanimado... Cada um tem secretamente a idéia de Deus... É perigoso para o corpo sonhar tempo demais... Deus, que parvo! Porque não veio quando o chamei?... porque é preciso abrir-lhe as portas..." [Arthur Cravan]
"O pintor que só emprega cores puras é como o literato que só diz m..."
Saudações!

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