"Perguntaram-me o que é que eu escrevia... e me escrevia a mim... Escrevo-me! E o que sinto é o que existo e o que sou... transformo-me todo em palavras... Há alguém a existir dentro de mim... e quando escrevo, tocamo-nos..."
[JL Peixoto]
[Vídeo by Charlotte Ronson]
"Se tentares atravessar-me por dentro, serás velho ao chegar... sk."
"Fui eu, sou a face pálida e ocre, o firme olhar fixo do olho à espreita, olho que vê, duro como pedra, mole como dúvida, certa compaixão, algum espanto, olhar que se expõe e se revela, pulsar de coração no crânio lívido à espera da harmonia universal... Tentativa de semear eternidades no que em meio à solidão do homem e na vida, é coisa breve e fluida, esperança de melhores dias vindos de deuses que aprimorem os seres, sonhando uma melhor humanidade..."
[Olga Savary, poema da antologia "Fui eu", releitura de vários poetas!]"Fui eu, esse menino que me espia - melancólico olhar, sereno rosto, postura fixa e o todo bem composto - no retrato que o tempo desafia. Fui eu na minha infância fugidia de prazeres ingênuos, e o desgosto de sentir tão efêmera, a alegria... bem depressa trocada em seu oposto. Fui eu, sim; mas o tempo que perpassa e tudo altera... nem sequer deixou um grão de infância feito esmola escassa. Fui eu: e na figura só ficou o olhar desenganado, na fumaça em que a criança, inteira, se mudou..."[Fernando Py]"Não é um rosto, é máscara da máscara, corroendo a cara. Não são olhos: buracos de lua sobre a faca. Ali não dormem pássaros. E a boca é vara da fala, vara da navalha. Vara sobre o nada. Vara afiada, envelhecendo as grisalhas falhas da cara. E as peles caindo sob a pele, reboco. Não é um homem. Não é um rosto. É abismo..."[Carlos Nejar]
[Imagens eternas de Audrey Hepburn]
"Não reconheço a face do velho retrato. Fui eu, sou todos agora, incluído este caderno e a caneta traçando átomos ligados às minhas veias. O céu distante da infância está na terra que me espera, fungos, flores, florestas ou asfalto, pedra, objeto, nevoeiros mais ou menos densos, nêutrons, prótons, elétrons, gêmeos idênticos deste coração trêmulo, desde o beijo até a linha deste verso. O ar eu queimo no pulmão vermelho. Para o espermatozóide eleito, o orgasmo é o clarão iluminando a caverna. O cotidiano estreito, engulo na alquimia transformista. Há milhões de anos me transformo em planta, inseto e alma, na fina capa de oxigênio do planeta. Matéria-prima das galáxias, sou barro para esculpir a vida eterna..."
[André Carneiro]
“São Paulo atingiu 6 milhões de veículos, quase a frota da Argentina inteira. Vivemos em uma cidade feita para servir sua majestade, O CARRO. O resto é silêncio. Ninguém dá muita bola para o Dia Mundial SEM Carro, em 22 de setembro. Mas o meu dia foi 19 de outubro. Numa manhã quente, saí de uma concessionária deixando lá para sempre o último representante da dinastia de meus oito veículos automotores, iniciada nos anos 70... um Fusca amarelo!
Fui à padaria mais próxima para me refazer daquele gesto extremo. Sentia-me só. Um amigo fizera de tudo para me demover da idéia de adotar a vida de pedestre: -Esta cidade é um horror com carro... e sem ele, é inviável! A perfeição não existe.
As calçadas de São Paulo, inclinadas, estreitas, imundas, esburacadas, atravancadas por mendigos e camelôs, cheias de degraus, são trilhas dantescas em comparação com as das ruas planas de Buenos Aires, Paris, Londres, Nova York, Tóquio e, se me permitem, Rio Grande. Mas não estou só. Tenho conhecido diversas pessoas que também tiveram carro a vida toda!
Quando nos tornamos motoristas, aos poucos nos rendemos a um ambiente de alavancas e pedais; botões e faróis; guardadores e guardas; espelhos e semáforos; impostos e multas. Sem sentir, "sucateamos as lembranças" de uma época em que andávamos por aí bem mais leves e disponíveis.
Andar a pé não significa tornar-se "franciscano". Assim como o sonho de consumo de um motorista pode ser uma doce Ferrari, o do pedestre pode ser uma palmilha de silicone. Não vejo problema nisso.
Também não sei se emagreci ou engordei, desde a minha Revolução de Outubro. Um peregrino urbano deve aprender a resistir à tentação de entrar em toda padaria que encontra pela frente. E a ele já é concedida uma forma de felicidade que se tornou rara: poder ir ao cinema por impulso, apenas por sentir cheiro de pipoca..."
[Renato Modernell and Ricardo Lombardi, in "Viver sem carros!"]
"Toda gente vive apressada, e sai-se no momento em que devia se chegar."