Mostrando postagens com marcador Vergilio Ferreira. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Vergilio Ferreira. Mostrar todas as postagens

sábado, 16 de julho de 2011

Suspensa e cega

Uma ideia que nos semeiem pode germinar e por isso é necessário sempre que as semeiem. A sua fertilidade não está na nossa mão ou na estrita qualidade da ideia semeada, porque o que somos profundamente só se altera quando o que somos o quer - e não quando nós o deliberamos. Assim nasce um desencontro entre a mecânica dos nossos raciocínios e a verdade que em nós já é morta. No hábito dos gestos, as mãos tecem a plausibilidade do que, em nós, já não é plausível... Então, nos é necessário substituirmos toda a aparelhagem de que nos servíamos e que já não nos serve. Só assim entenderemos que da «discussão» quase nunca nasça a «luz», porque a luz que nascer é de duas pedras que se chocam. Surpresos olhamos 'quem fomos' porque já não nos reconhecemos. Atónitos, nos perguntamos: como foi possível?, quando, onde, porquê?, ao espanto da nossa transfiguração, que nós próprios nos armamos, e mesmo quando foi a vida que nos armou; porque tudo quanto é da vida, e dos outros, e dos mil acontecimentos que quisermos, só existe eficaz e realmente quando atinge a profundidade de nós. Como aceitar assim a força da razão, se a força dela está onde ela não está? 
Uma verdade só o é quando sentida, não apenas "entendida"...

Bonjour!
[Vergílio Ferreira, in 'Invocação ao Meu Corpo']

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Mais árido que o deserto...

"A dificuldade de estabelecer e firmar relações. Ser sociável exige um esforço enorme — físico. Quem se habituou, já não se cansa. Tudo se passa à superfície do esforço. Ter «personalidade»: não descer um milímetro no trato, mesmo quando, por delicadeza, se finge. Assumirmos a importância de nós, sem o mostrar. Darmo-nos valor,  sem o exibir. Irresistivelmente, agacho-me... E logo: a pata dos outros em cima. Bem feito. Pois se me pus a jeito..."
Vergílio Ferreira

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

A evidência de sí


"Que havia, pois, mais para a vida, para responder ao seu desafio "de milagre e de vazio", do que vivê-la no imediato, na execução absoluta do seu apelo? Eliminar o desejo dos outros para exaltar o nosso. Queimar no dia-a-dia os restos de ontem. Ser só abertura para amanhã. A vida real não eram as leis dos outros e a sua sanção e o seu teimoso estabelecimento de uma comunidade para o furor de uma plenitude solitária. O absoluto da vida, a resposta fechada para o seu fechado desafio, só podia revelar-se e executar-se na "união total com nós mesmos", com as forças derradeiras que nos trazem de pé e são nós e exigem realizar-se até ao esgotamento. Este "eu" solitário que achamos nos instantes de solidão final, se ninguém o pode conhecer, como pode alguém julgá-lo? E de que serve esse "eu" e a sua descoberta, se o condenamos à prisão? Sabê-lo é afirmá-lo! Reconhecê-lo é dar-lhe razão. Que ignore isso, o que ignora que é. Que o despreze e o amordace o que vive no dia-a-dia animal. Mas quem teve a dádiva da evidência de si, como condenar-se a si ao silêncio prisional? Ninguém pode pagar, nada pode pagar a "gratuitidade" deste milagre de sermos. Que ao menos nós lhe demos, a isso que somos, a oportunidade de o sermos até ao fim. Gritar aos astros até enrouquecermos. Iluminarmos a brasa que vive em nós até nos consumirmos. Respondermos com a absoluta liberdade ao desafio do fantástico que nos habita. Somos cães, ratos, escaravelhos com consciência? Que essa consciência esgote até às fezes a nossa condição de escaravelhos. "

Vergílio Ferreira, in 'Aparição'

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails