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sábado, 16 de julho de 2011

Suspensa e cega

Uma ideia que nos semeiem pode germinar e por isso é necessário sempre que as semeiem. A sua fertilidade não está na nossa mão ou na estrita qualidade da ideia semeada, porque o que somos profundamente só se altera quando o que somos o quer - e não quando nós o deliberamos. Assim nasce um desencontro entre a mecânica dos nossos raciocínios e a verdade que em nós já é morta. No hábito dos gestos, as mãos tecem a plausibilidade do que, em nós, já não é plausível... Então, nos é necessário substituirmos toda a aparelhagem de que nos servíamos e que já não nos serve. Só assim entenderemos que da «discussão» quase nunca nasça a «luz», porque a luz que nascer é de duas pedras que se chocam. Surpresos olhamos 'quem fomos' porque já não nos reconhecemos. Atónitos, nos perguntamos: como foi possível?, quando, onde, porquê?, ao espanto da nossa transfiguração, que nós próprios nos armamos, e mesmo quando foi a vida que nos armou; porque tudo quanto é da vida, e dos outros, e dos mil acontecimentos que quisermos, só existe eficaz e realmente quando atinge a profundidade de nós. Como aceitar assim a força da razão, se a força dela está onde ela não está? 
Uma verdade só o é quando sentida, não apenas "entendida"...

Bonjour!
[Vergílio Ferreira, in 'Invocação ao Meu Corpo']

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Flores no escuro

A liberdade só existe quando todos os nossos atos 
concordam com todo o nosso pensamento.

Cada um só vê do universo aquilo que 
a sua sensibilidade lhe permite.
Agostinho da Silva

Bonjour!

sábado, 15 de janeiro de 2011

O gengibre, o pistache e a papoula

Ao pegarmos num fruto delicioso, será justo pretender respirar ao mesmo tempo o perfume da flor? 

Uma certa vivacidade de impressões, mais dependentes da sensibilidade física, decresce com a idade. O meu espírito tem hoje uma segurança muito maior, uma maior capacidade de fazer associações e de se exprimir. A inteligência cresceu, mas a alma perdeu parte da sua elasticidade e irritabilidade. Foi preciso passar pela sutil delicadeza da nossa sensibilidade juvenil para chegar a esta segurança e maturidade do espírito. Talvez os grandes homens - é o que eu penso - sejam aqueles que, numa idade em que a inteligência já possui a sua plena força, ainda conservem parte dessa impetuosidade das impressões, que é própria da juventude. 
Eugène Delacroix

Bonjour!


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