quarta-feira, 4 de março de 2009

L'amour

"Não se reconquista o amor com argumentos. Não te esqueças de que a tua frase é um ato. Se desejas levar-me a agir, não pegues em argumentos. Julgas que me deixarei determinar por argumentos? Não me seria difícil opor aos teus melhores argumentos. Já viste a mulher repudiada reconquistar-te através de um processo em que ela prova que tem razão? O processo irrita. Ela nem sequer será capaz de te recuperar mostrando-te tal como tu a amavas, porque essa tu já a não amas. Olha aquela infeliz que, nas vésperas do divórcio, teve a idéia de cantar a mesma canção triste que cantava quando noiva. Essa canção triste ainda tornou o homem mais furioso.
Talvez ela o recuperasse se o conseguisse despertar tal como ele era quando a amava. Mas para isso precisaria de um génio criador, porque teria de carregar o homem de qualquer coisa, da mesma maneira que eu o carrego de uma inclinação para o mar que fará dele construtor de navios. Só assim cresceria essa árvore que depois se iria diversificando. E ele havia de pedir de novo a canção triste.
Para fundar o amor por mim, faço nascer em ti alguém que é para mim. Não te confessarei o meu sofrimento, porque ele te faria desgostar de mim. Não te farei censuras: elas irritar-te-iam justamente. Não te direi as razões que tu tens para amar-me, porque não as tens. A razão de amar é o amor. Também não me mostrarei mais, tal como tu me desejavas. Porque tu já não desejas isso. Senão, amar-me-ias ainda. Mas educar-te-ei para mim. E, se sou forte, mostrar-te-ei uma paisagem que fará de ti meu amigo."
[Antoine de Saint-Exupéry¹] "Às vezes o homem repudia a mulher, ou a mulher muda de amante, por se ter desiludido. Consequências do comportamento leviano quer de um, quer do outro. 
Porque só é possível amar através da mulher e não a mulher. Através do poema e não o poema. Através da paisagem entrevista do alto das montanhas. 
E a licenciosidade nasce da angústia de não se conseguir ser. 
Quando uma pessoa anda com insônias, volta-se e torna-se a voltar na cama, à procura do fresco ombro do leito. Mas basta tocá-lo, para ele se tornar tépido e recusar-se. 
E ele procura noutro sítio uma fonte durável de frescura. Mas não consegue dar com ela, porque mal lhe toca, a provisão esvai-se.  O mesmo se passa com aquele ou aquela que se fica no vazio dos seres. Não passam de vazios os seres que não são janelas ou frestas para Deus. É por isso que, no amor vulgar, só amas o que te foge. De outra maneira, vês-te saciado e desacorçoado com a tua satisfação. "
[Antoine de Saint-Exupéry²]

terça-feira, 3 de março de 2009

Rapina

"Alguns sábios afirmaram que a ira é uma loucura breve; por não se controlar a si mesma, perde a compostura, esquece as suas obrigações, persegue os seus intentos de forma obstinada e ansiosa, recusa os conselhos da razão, inquieta-se por causas vãs, incapaz de discernir o que é justo e verdadeiro, semelhante às ruínas que se abatem sobre quem as derruba. Mas, para que percebas que estão loucos aqueles que estão possuídos pela ira, observa o seu aspecto; na verdade, são claros indícios de loucura a expressão ardente e ameaçadora, a fronte sombria, o semblante feroz, o passo apressado, as mãos trementes, a mudança de cor, a respiração forte e acelerada, indícios que estão também presentes nos homens irados: os olhos incendiam-se e fulminam, a cara cobre-se totalmente de um rubor, por causa do sangue que a ela aflui do coração, os lábios tremem, os dentes comprimem-se, os cabelos arrepiam-se e eriçam-se, a respiração é ofegante e ruidosa, as articulações retorcem-se e estalam, entre suspiros e gemidos, irrompem frases praticamente incompreensíveis, as mãos entrechocam-se constantemente, os pés batem no chão e todo o corpo se agita ameaçador, a face fica inchada e deformada, horrenda e assutadora. Ficas sem saber se o que há de pior neste vício é ser detestável ou ser tão disforme. Os outros vícios podem, pelo menos, esconder-se e desenvolver-se em segredo: a ira revela-se e sobe "à face", e quanto mais intensa mais manifesta se torna.  Não vês como todos os animais, quando se preparam para atacar, denotam alguns sinais, à medida que abandonam a sua mansidão habitual e começam a manifestar a sua ferocidade? Os javalis espumam pela boca e esfregam as suas presas para as aguçar; os touros dão golpes no ar com os seus cornos e espalham areia batendo com as patas; os leões rugem; as serpentes incham o seu pescoço; o aspecto dos cães enraivecidos é sinistro: não há nenhum animal tão horrendo ou tão perigoso por natureza, que nele não surjam, quando a ira o invade, sinais próprios da ferocidade. Não ignoro que as outras afecções, que se podem ocultar, como o desejo, o medo, a audácia, podem também dar alguns sinais e ser pressentidas; de facto, qualquer perturbação mais intensa modifica algo na nossa expressão. Então, qual é a diferença?É que as outras afecções são perceptíveis... a ira é evidente!" [Séneca, in 'Da Ira'/ A breve loucura] "O melhor remédio para a ira é fazer uma pausa. Não para perdoares, mas para refletires: os primeiros impulsos da ira são os mais graves; ela desaparece se tiver que esperar. Não tentes afastá-la por inteiro: conseguirás vencê-la por completo se a arrancares "por partes".  Entre os atos que nos ofendem, uns são-nos narrados, outros são vistos ou ouvidos por nós mesmos. Não devemos acreditar prontamente naqueles que nos são narrados: muitos homens mentem para enganar... outros tantos mentem porque foram enganados... outros ganham "favores" com incriminações e inventam uma ofensa para se mostrarem "indignados"... outro é um homem "maldoso" e quer destruir amizades sólidas... outro não merece confiança e gosta de "observar ao longe" e em segurança, as desavenças que ele mesmo cria. Quando tens que emitir um juízo sobre um qualquer assunto, não poderás admitir os fatos sem que deles haja uma testemunha, e a testemunha não tem validade se não houver um juramento; darás a palavra às duas partes, farás um intervalo, não as ouvirás uma vez apenas (a verdade manifesta-se àquele que mais vezes a toma em mãos). E condenas prontamente um irmão, um amigo? Ficas irado antes de o ouvir, antes de interrogares, antes de permitires-lhe conhecer o acusador ou o crime? De facto, terás ouvido as duas partes?  Aquele que fez a denúncia certamente calar-se-á, se tiver que apresentar provas: "Não é necessário expores-me", dirá logo. Ao mesmo tempo, ele instiga e furta-se à confrontação e ao debate. Não querer falar senão em "segredo" é quase o mesmo que nada dizer... é instigar! E o que poderá ser mais perverso do que confiar numa denúncia feita em segredo e irar-se publicamente?"
[Séneca, in 'Da Ira Induzida' /A breve loucura]
Pobres bárbaros, adoram expor-se às espadas, lançar seus corpos sobre as lanças e morrer dos seus próprios ferimentos... Bonjour!

segunda-feira, 2 de março de 2009

À ta santé!

"Ou tudo é bom, ou tudo é mau, segundo os votos. O que este segue, aquele persegue. Insofrível néscio é quem quer regular todo o feito pelo seu conceito. E as perfeições não dependem do agrado de um só. Tantos são os gostos quantos os rostos, e tão variados. Não há "senão" sem paixão, nem se há-de perder a confiança porque as coisas não agradam a uns, pois não faltarão outros que as apreciem. E que tampouco o aplauso destes lhe seja motivo de convencimento, pois outros o condenarão. A norma do verdadeiro contentamento consigo mesmo é a aprovação dos varões de reputação, e que têm direito de voto naquela ordem de coisas. Não se vive de uma só opinião, de um só uso, de um só século!"
[Baltasar Gracián y Morales, in "A Arte da Prudência"]
"Ter o dom da simpatia. É das coisas que mais se invejam. Tem, como tudo, a sua técnica, mas os efeitos são sempre problemáticos. Há o sujeito amável, como o distante, o inteligente como o mediano, o modesto ou o vaidoso, o convincente como o retraído, o irónico ou o sério e assim por diante, com todas as qualidades que se quiserem e o seu contrário. Num caso e noutro pode-se ser "simpático" ou "antipático", captarmos os favores dos outros ou a sua repulsa. Não é fácil determinar o que realmente decide uma adesão. E se fosse simplesmente o ter-se "personalidade"? O assumir-se verticalmente aquilo que se é? Isso, ao menos, imporia uma deferência ou "respeito". Lembra-se uma frase de um antigo tragediógrafo latino (Ácio): que nos odeiem desde que nos temam. Não é evidentemente o caso aqui. Mas é qualquer coisa de parecido: que se seja o que se for, desde que se assuma isso em responsabilidade. O resto são apenas formas de "simpatia", ou seja, do "sentir-se com". E de todas elas, a base delas - ou seja, a admiração. Porque se não tem simpatia, se não houver seja o que for de admiração: tem-se apenas tolerância ou piedade"!!! [Vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente 3']
À ta santé!

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