sábado, 21 de fevereiro de 2009

Os tabus

"Somos um sonho divino que não se condensou por completo dentro dos nossos limites materiais. Existe, em nós, um limbo interior; um vago sentimental e original que nos dá a faculdade mitológica de idealizar todas as coisas. (...) Se fôssemos um ser definido, seríamos então um ser perfeito, mas limitado, materializado como as pedras. Seríamos uma estátua divina, mas não poderíamos atingir a Divindade. Seríamos uma obra de arte e não vivente criatura, pois a vida é um excesso, um ímpeto para além, uma força imaterial, indefinida, a alma, a imperfeição. A vida é uma luta entre os seus aspectos revelados e o limbo em que eles se perdem e ampliam até à suprema distância imaginável; uma luta entre a realidade e o sonho, a Carne e o Verbo. Entre nós, o Verbo não encarnou inteiramente. Somos corpo e alma, verbo encarnado e verbo não encarnado, a matéria e o limbo, o esqueleto de pedra e um fumo que o encobre e ondula em volta dele, e dança aos ventos da loucura... E aí tendes um pobre tolo sentimental, uma caricatura elegíaca. Neste limbo interior, neste infinito espiritual, vive a lembrança de Deus que alimenta a nossa esperança, e transfigura esse bicho do Demónio, que anda por esses boulevards, vestido à moda ou coberto de farrapos. Ardemos num incêndio de esperança, para que reste de nós uma lembrança, um fumo que sobe e não se apaga. Tudo é memória: um fumo leve, em mil visagens animadas; ou denso, em formas inertes e sombrias; e, ao longe, a grande fogueira invisível que os demónios e os anjos alimentam..." [Teixeira de Pascoaes³, in 'O Pobre Tolo'] "Se a todos nós fosse concedido o poder de ler a mente uns dos outros, suponho que o primeiro efeito seria que quase todas as amizades "se desfariam". O segundo efeito, entretanto, poderia ser excelente, mas um mundo sem amigos seria sentido como intolerável, e nós teríamos de aprender a gostar uns dos outros sem a necessidade de "um véu de ilusão" para esconder de nós mesmos que não nos consideramos, uns aos outros, pessoas absolutamente perfeitas. Sabemos que os nossos amigos têm as suas falhas, e que apesar disso são pessoas de um modo geral aprazíveis das quais gostamos. Consideramos intolerável, no entanto, que tenham a mesma atitude conosco. Esperamos que pensem que, ao contrário do resto da humanidade, nós não temos falhas. Quando somos compelidos a reconhecer que temos falhas, tomamos esse fato (óbvio) com demasiada PERPLEXIDADE..." [Bertrand Russell,in "Amizade sem Tabus"]

2 comentários:

Crazy Drile™ disse...

Muchas gracias por tu comentario acerca de las victimas del incendio en Australia....y bienvenida cuando quieras a mi pagina...hey...eres de ecuador??

Take Care

Crazy Drile

Foquinha! disse...

Remerciement spécial à Crazy, à Áustrália et pour l'amitié virtuelle... Je suis bresiliene e je ne parle bien l'anglais... au secour!!! rs...

Gros bisous, je suis à votre disposition, Crazy!

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