sábado, 28 de março de 2009

Ossóptico

"A fita desfiada e amarela que trazes ao pescoço equilibrada nos teus dedos de marfim; a gruta onde nos fixámos sobre o brilhante rubro; o jogo de sínteses ainda em esboço primário na curva imensa; o rosto sem olhos atravessado por uma seta do guerreiro do lago, do corsário oceânico, do legendário argonauta.. Persisto, idêntico e semelhante a uma multidão de garotos sem memória, na estrada de parafusos que contornas medindo a compasso a distância quilométrica que percorres, imagina!Imagino-te a dez quilómetros certos sem um gesto..
Persisto na noite que nasceu para além dos olhos, no vento que fundiu a planície, igualmente em todo o mundo vísivel, em tudo que me toca e resplandece alargando-se até ao infinito onde estão os teus olhos de Mulher-Mãe, Magnífica na tua veste de cabelos.. Procura-me quando encontrares na viagem que vais fazer, o teu número fatídico no triângulo negro, onde está representada a Mulher de cinco cabeças e, sobre a pedra, a palavra mágica do nosso encontro..
Virás ao saberes da existência do Surreal quando os homens furiosamente afirmam a sua vida, quando das paredes derruídas vêm palavras estranhas e prevêm o futuro e hieroglifos indecifráveis inscritos nas pedras dos túmulos te indicam.. Virás ao saberes que te ocultaram a existência do teu ser autónomo e real, ao acordares um dia com o céu, o vento, na erecção das árvores, quando o teu nome nasceu virgem nas estrelas ao nasceres tu..
Procura-me quando a morte for impossível e já não seja possível viver – quando já nada nada for possível - e então opor-me-ei ao mundo a que nos opomos, apontarei a mulher-morta onde o opaco é transparente e cairá a estrela cadente, rápida e precisa, que os mortos dizem e dizem que estou louco no movimento perpendicular.. Procura-me quando já não for possível nem morto, lento, alto, ruidoso de claridade, com objectos exóticos intensamente iluminados, quando já nada for possível e apareceres sem nexo, estranha a ti mesma, diferente, como um bloco de prédios demolidos ou ave negra.. FALSA a nossa vida sabotada no pasmo em que vivemos, na negação do que nos é mais grato – o AMOR - prevista a LIBERDADE! A afirmação exaltada que nos queima os dedos entrelaçados. Mulher-Mãe tumulada! Sem sabermos um do outro ambos nos procurámos no labirinto, Nós Amor! Que existes porque existo e existimos assim para além das montanhas de mar que nos cercam, para além da noite, para além de ti, de mim, do corpo que formamos síntese de toda a poesia feita.. Dedico-te este poema para existires integral, completo e real, como o objecto que não se nega, como o invisível, como o universo onde vivemos separados-unidos para sempre –REAL e LIVRE..."
[António Maria Lisboa,in Ossóptico1, 1952]

2 comentários:

Crazy Drile™ disse...

traslate pleaseeeeeeeeeeeee!

Foquinha! disse...

I'm tryingggg, Sebastian!!!...but it is very, very difficult...I'm a seal, Mr.Kangaroo ;)
B
e
i
j
o!

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